Como diretor da gravadora Philips, Boris Vian popularizou ícones como Miles Davis e Charlie Parker na França.
Humor, poesia e vida breve
Livro e CD revelam duas facetas do mito francês Boris Vian que permaneceram desconhecidas no Brasil por mais de 40 anos.
LAURO LISBOA GARCIA


Para entrar no espírito irônico e paradoxal do personagem, cabe observar que o escritor e compositor Boris Vian (1920-1959) tem fama de desconhecido no Brasil. A despeito disso, vem ganhando cada vez mais admiradores nos meios artístico e intelectual. Dois deles, a cantora mineira Letícia Coura e o engenheiro e poeta Ruy Proença, são responsáveis por revelar duas facetas do multiartista ao país -- a poética e a musical -- que permaneceram praticamente inéditas por mais de 40 anos. Proença traduziu e fez uma indispensável compilação de poemas do francês. A cantora lançou recentemente o elogiado CD Letícia Coura Canta Boris Vian. Livro e disco estão interligados e se completam por meio de uma terceira linguagem: a do teatro.
No palco do Espaço dos Satyros, em São Paulo, Vian ressurge em atmosfera de cabaré. Entre os melhores momentos do show com Letícia e o ator Ivan Cabral está a fusão do poema "La Vie en Rouge" com a canção "La Vie en Rose", da homenageada Edith Piaf. Em "Bate em mim, Johnny", pérola do sadomasoquismo, Ivan inspirou-se na atuação do próprio Vian nos palcos franceses. Das 478 músicas registradas do compositor, apenas "Fais-moi Mal, Johnny" tinha sido gravada no Brasil, pelo grupo Luni e por Letícia Coura, em versões distintas. Com total liberdade na tradução, a cantora e compositora adaptou outras sete e canta mais uma no original. "A obra de Vian tem variedade e informação, exala muita vida e, acima de tudo, humor, mesmo quando é mórbido", analisa Letícia. "Tenho descoberto que ele é muito mais querido no Brasil do que se pensa."
O legado literário e musical de Vian é tão vasto e ímpar quanto sua biografia. Segundo de quatro filhos, ele teve uma infância feliz, apesar da mãe possessiva, e viveu como burguês até a crise de 1929 minguar a fonte de renda do pai. Aos 12 anos sofreu uma febre reumática que lhe afetou definitivamente o coração. Aos 15 uma febre tifóide lhe trouxe mais seqüelas. A partir daí a sombra da morte o perseguiu e influenciou de forma indelével sua arte. Sob a ameaça do fim iminente, tudo o que produzia tinha a marca da urgência. "A criação dele era compulsiva, própria de quem tinha muita vontade de viver", diz Ivan Cabral. "Isso é o que torna seu trabalho atraente."
Com igual intensidade, Vian absorveu as conseqüências da vida entre guerras. O inconformismo com as regras sociais e o antimilitarismo são aspectos relevantes de sua obra. Sua canção mais popular, "Le Déserteur" ("O desertor"), e o conto "As Formigas" tratam disso. A poesia de Vian contrasta vida com morte, sarcasmo com ternura, erudição com vulgaridade, sensualidade com escárnio. Eles podem quebrar o mundo/Em pedacinhos/Ainda me sobra muito, dizem os versos de "Eles Quebram o Mundo", um dos 32 poemas selecionados por Ruy Proença em Boris Vian -- poemas e canções. Extraído do livro Barnum's Digest, "Com Banha" é desconcertante: Nunca encontrei uma mulher/Que me fizesse arrepender-me de ser homem/Peço a elas que não tomem isso por elogio.
A leitura atual de Vian revela um incrível frescor. "Seus versos, escritos entre o final da adolescência e os 30 anos, refletem o temperamento de um jovem iconoclasta", diz Proença. "Isso é o que conserva a obra dele." Cheios de referências culturais e trocadilhos intraduzíveis, os versos ressaltam a desobediência às regras. "A França tem tradição de poesia cerimoniosa. Vian tinha um olhar dessacralizante sobre ela", analisa o tradutor. Esse aspecto talvez explique por que Vian é tão cultuado entre jovens na Europa e especialmente no país de origem. Ele viveu pouco, mas intensamente. Foi romancista, engenheiro, poeta, trompetista, amante e crítico de jazz, dramaturgo, cronista, cenógrafo e ator, entre outras atividades. Era, por isso, chamado de homem-orquestra. Freqüentou o círculo de amizades de outros ícones franceses, como os existencialistas Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir e o compositor Henri Salvador, parceiro em várias canções. Foi precursor da geração beat.
No final dos anos 40, Vian protagonizou uma das maiores imposturas literárias do século. Fez-se passar pelo tradutor do autor americano Vernon Sullivan, que na verdade era ele mesmo. O maior sucesso sob tal pseudônimo foi Vou Cuspir nos Seus Túmulos. Romance noir ao estilo de Dashiell Hammett, repleto de violência, erotismo e racismo, Vou Cuspir... foi um best-seller premeditado. Desencadeou uma sucessão de escândalos, da descoberta da verdadeira identidade do autor à proibição do livro na França, passando por um processo por ultraje aos bons costumes. Vian morreu de ataque cardíaco, aos 39 anos, numa pré-estréia do filme (que muito o desagradava) adaptado daquele romance.
Há quem relacione a música de Vian à do alemão Kurt Weill e sua literatura à obra de Franz Kafka, Eugène Ionesco e Samuel Beckett, pelo alto grau de invenção, pela pungência e por abordagens originais e cruas dos porões da mente humana -- com fartas doses de cinismo e tintas surrealistas. Apenas três de seus cerca de 40 livros foram editados no Brasil nos anos 80 e estão há muito fora de circulação. Trata-se dos romances A Espuma dos Dias e Vou Cuspir no Seu Túmulo (a tradução preferiu o título no singular) e a compilação de poemas e ensaios Escritos Pornográficos. Vian raramente figura na lista dos escritores de leitura obrigatória, mas tornou-se fenômeno de consagração póstuma por pressão popular. Sua obra até hoje desperta grande interesse nos jovens. O país natal daquele que em tempos modernos seria chamado de artista multimídia prepara-se para reeditá-la por completo. O mito se agiganta.

Revista Época, edição 153, 23/04/2001

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