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Tomar vinhos sempre é mais chique, mais europeu, mesmo que seja do mais
barato, servido à jarra para não mostrar garrafa e rótulo.
O vinho tem gradação e sabor: mélicos, cítricos, amaros e raros. Pela
marca do vinho, se conhece a conta bancária da pessoa. Ele pode ser saboreado
sob um estalo de língua, há até degustadores profissionais, que mais cheiram
do que bebem. Não vai nessa observação nenhum julgamento sobre os críticos
literários.
Vinho é como poesia que pode ser lida num sarau de requinte ou numa roda
de amigos, num boteco; estar num CD de MPB ou sertanejo, mas sempre é
poema, nunca deixa de ser vinho. É respeitado quem o faz e quem o consome,
ambos têm alma diferente.
"Vinhos", agora entre aspas, é o segundo livro da poetisa
araçatubense Cecília Ferreira, membro da Academia Araçatubense de Letras.
Um livro leve e suave, mas instigante, como o CD "Os Tribalistas", é um
olhar de quem permite se aproximar.
Quando Cecília chega, não se sabe se adentrou a sala uma menina ou uma
senhora; uma paulistana quatrocentona (Vidigal Ferreira) ou apenas uma
estudante de Jornalismo. De repente se descobre que está na sala uma mulher,
uma mãe que já tem filhos na faculdade.
No livro, ela é mais menina e estudante de Jornalismo; mais mulher: "mas
num copinho com água/ a novidade: florais?!/ "Eu não quero adormecer!
Quero você sempre e mais."
A embalagem do livro é linda. Capa dura, editora Nankin, sob encomenda.
O seu conteúdo, ainda melhor, de quem tem uma vida e a vive como é mandada,
sem amargor e nostalgia: "É desafio!/ Estalo a língua/ e sinto o gosto.../
Uma vez identificado, gosto do jogo!/ Vamos jogar!" "Vinhos" é para ser
lido, mascando chiclete, enquanto se espera a resposta do outro (ou outra)
no ICQ, ou na academia, pedalando. "Vinhos" é leitura de metrô ou de quando
se espera o semáforo abrir, dentro do carro.
O livro não reclama do mundo nem dá conselhos, apresenta um futurismo
ajustado, um futurismo-presente, que às vezes não se vê de tão visível
em nossas vidas.
Sua mensagem quer apenas ajudar o caminheiro a interpretar algumas passagens,
mas também não chega a descrever um vaso chinês, como fez o poeta parnasiano:
"Se por acinte/ ou sem querer/ desimportante/ será saber o fato/ quem
ou qual, ou de quanto/ é o meu barato.// Ah, não procure em meus poemas/
o seu retrato".
Carlos Drummond de Andrade não se sentia um escritor profissional, pois
nunca se sentara para escrever um livro. E disse: "Sempre fiz um poema,
um artigo, uma crônica, e essas coisas acumuladas, ao fim de um ano, acabavam
virando livro".
Cecília Ferreira escreveu um livro, porque ele foi um projeto, desde o
título até as partes, por isso deve ser lido, dado a um amigo (ou amiga),
não é um castigo, é um presente mesmo, até para quem não é muito chegado
a ler.
Não é propaganda, caro leitor! Vinhos! é bom!
Experimente! Nas livrarias do Brasil.
Hélio Consolaro é professor de Literatura, escritor e
presidente da Academia Araçatubense de Letras. (Publicado no jornal Folha
da Região, Araçatuba-SP, em 19/11/2003.)
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