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O embate entre pentecostalismo, esoterismo e ciência:
tema mais que atual
Em Æther temos uma bem urdida trama policial, envolvendo
roubos, chantagens e assassinatos. Mas não se trata de uma trama policial
qualquer. As instituições acadêmicas que desenvolvem alta
ciência são os cenários das trapaças e das mortes.
Deus, tempo, espaço, causalidade, matéria, alma, encarnação,
criação, salvação, redenção, determinismo
e livre-arbítrio são conceitos deste enredo. Pesquisa-se um
suposto Weakly Interactive Massive Particles, wimps-éter-fluido
que nas ciências ocultas seria uma desconhecida influência ou
força misteriosa que emanaria dos astros, dos seres e das coisas, e que
explicaria formas de energia aparentemente inexplicáveis. Busca-se
esta fórmula através da máquina eteromaterial do Universo
desenvolvida pelo doutorando Augusto Steiner. Aqui, alta ciência, neopentecostalismo,
esoterismo, bruxaria, cura, espiritualidade e tráfico de drogas caminham
juntos, aparentemente atitudes antagônicas, mas nem tanto. Instituições
religiosas como a Ordem Templária dos Cavaleiros Brancos e o Templo Evangélico
Nova Aliança com Deus a primeira disseminando e escondendo pretensos
altos segredos das ciências esotéricas, contidas no livro Jaiminisûtra
e a segunda fazendo uso da mais reles exploração ideológica
religiosa estão em constante contraponto, mas ambas querem a mesma
coisa: aumentar o seu rebanho de crentes e roubar fiéis uma da outra.
A ciência, neste caso, busca a descoberta de algo que pretensamente os ocultistas
já conhecem e tentam esconder como matéria de uso próprio.
Enquanto a ciência quer divulgar, os ocultistas usam este conhecimento como
moeda de troca e fazem justiça com as próprias mãos,
eliminando todo crente desgarrado, com o método do envenamento. Há
aqui um confronto entre a fé e a busca de uma pretensa verdade através
das fórmulas físico-alquímico-matemáticas e pesquisas
em laboratório. A fé está nos templos e nas ruas e a verdade
científica dentro das universidades e o templo acadêmico também
não é muito diferente do templo religioso. Picuinhas e disputas
correm à solta. Comércio de teses é uma prática comum,
tanto quanto o plágio de idéias alheias, bem como o roubo de obras
raras. Há que se atentar também para os topônimos e antropônimos
desenvolvidos no enredo. Embla Rhodes dá nome aos bois. Os endereços
e as instituições têm os seus nomes verdadeiros e até
personagens têm nomes com funções conhecidas ou aproximadas.
Isso gera um efeito de estranhamento, a ponto de perguntarmos: mas é
isso mesmo?, há alguma verdade por trás disso?,
essa pessoa fez isso mesmo? Por tudo isso, vale a pena mergulhar
de cabeça neste alentado volume e se deixar ler por esta trama bem escrita
sobre o alto e o baixo da ciência e do comportamento humano.
Antônio
do Amaral Rocha |