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Atrás do osso mostra que Thelma Guedes não receia
ser vista como insólita, estranha e paradoxal, nesta antilírica
na qual o poeta pode ser um cão e a palavra é comparada
a um osso. Conforme ela mesma declara, seu projeto é fazer poesia/
que escapa do rumo: escreve para desarranjar a palavra e descobrir
novos modos de utilizá-la, assim rompendo com o prosaico, o previsível
e o já sabido por todos. Daí resulta uma poesia colada ao
real, às experiências do dia-a-dia; mas que também
contém uma metalinguagem, uma reflexão personalíssima
sobre a poesia e uma representação do poeta.
Essa dimensão é mais claramente evidenciada no final do
livro, no surreal dicionário de multiplicações dos
sentidos, alguns deles absurdos, impossíveis, de vocábulos
correntes: assim mostra que toda palavra pode ser outra coisa, desdobrando-se
em significados. Para descobri-los, é preciso desenvolver uma sensibilidade
especial, análoga ao faro apurado de um cão. O resultado
dessa alquimia pessoal é a descoberta do que está atrás
do osso, e também atrás das aparências: o não-evidente
que pode ser a arte a alma a ternura, e também dinamite
pura dura. Através dessa descoberta, por mais que Thelma Guedes
insista, ironicamente, que eu não farei a poesia/ nem inventarei
a vida, acontece a transformação do mundo, no qual poderá
florescer a fresca erva pecadora, que salva-me, pecadora.
É interessante como, ao mesmo tempo, a poeta recupera uma dicção
de cantigas ditas para crianças, e como parece evocar a própria
infância: aos dez anos descobri a verdade nua crespa. Se,
em uma dada altura do livro, o poeta é um cão, também
é uma criança, por isso capaz de brincar, de tratar a palavra
de modo lúdico, libertando-a de seus usos instrumentais, recuperando-a
como canto/ divina insolência: como linguagem primordial.
Claudio Willer
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