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RETRATO
ESPÉCULO
Este livro é, no sentido próprio, um ensaio e seus resultados
devem ser avaliados como reflexão e busca de sentido para a dinâmica
da aventura moderna brasileira. Sabemos que estamos diante de um País
múltiplo, variado, desigual, complexo e contraditório. Neste
livro há perguntas, há respostas, há muitas questões
e, há nele, sobretudo, um campo de perplexidades.
O livro constitui um longo ensaio, formado por treze ensaios, escritos
por treze estudiosos preocupados com o que somos, como vivemos, como sentimos
e em que hora estamos. São falas que reconhecem nossas peculiaridades
e diferenças nacionais, sociais, políticas, culturais e
étnicas, que não pretendem estar fora de seu lugar de fala
-- não pretendem driblar a própria sombra -- e entendem,
que as zonas obscuras que nos formam podem não estar disponíveis
para esclarecimento.
Há enigmas no País que não parecem decifráveis,
outros que ninguém postula como tais. Há segredos vedados,
cuja revelação parece fora de alcance, mesmo que a solicitação
histórica exija um discurso, ainda que metafórico, para
dizer de suas dobras amarfanhadas. Cada uma das falas deste livro propõe
e expõe enfrentamentos, na condição de sujeito de
conhecimento, sendo, ao mesmo tempo, objeto de conhecimento, pois a matéria
histórica discutida nos informa e forma a todos, determinações
incontornáveis, enfrentamentos contra o concreto e o abstrato,
embates de fantasmagorias. Essas falas dizem de um Brasil que foi, que
quase é, que talvez pudesse ser ou ainda venha a ser.
As histórias da aventura brasileira moderna sem chave de ouro,
sem certezas e sem desfecho previsível. O século XXI, certamente,
virá a dizer muitas coisas diferentes sobre tudo isso. Quem viver
verá.
Cada um dos treze autores escreveu seu ensaio quase sem saber o que os
outros faziam. Receberam breves sugestões, isoladamente, mas contaram
com a independência e a liberdade, disponíveis neste mundo,
nestas condições da nossa democracia, para escrever como
e o que quisessem. Dizer que não houve constrangimentos é
ocioso e ilusório. Os organizadores miravam o projeto geral de
obter indicações sobre o modo de ser e de viver dos brasileiros.
Os limites necessários e normais para um livro com esse horizonte
deixaram de fora muito mais do que aquilo que abrigam em si. Não
havia alternativa, reconhecendo-se o arbitrário das escolhas, quase
como fadário, ou melhor, fatalidade, pois não há
como supor e querer que o País e seu segredo, ou enigma, ou ainda,
enigmas, e sua multiplicidade contraditória, caibam num livro,
ainda que fosse aquele que se proponha a "superar todos os livros".
Os organizadores dispuseram os ensaios em três blocos, reunindo-os
por afinidades temáticas, sem que a ordem desses blocos signifique
maior ou menor prestígio, ou preferência, pelo menos conscientemente.
O leitor perceberá facilmente que o modo de ser dos textos difere
bastante entre si, evidência da independência ou liberdade
dos autores. A ironia, às vezes o bom humor, o registro crítico,
eventualmente o tom inconformista, enfim, a variedade de posturas e inquietações
e perplexidades bem revela as dificuldades e os obstáculos para
o conhecimento e expressão do que somos e como vivemos.
O leitor notará também que este é um livro democrático
e dialógico. Não são enunciadas verdades definitivas,
nunca se assume o tom autoritário de quem não quer compartilhar
dúvidas e dificuldades. Por sua vez, há um diálogo
intensivo com a tradição teórica do País,
com as fontes de pesquisa, com os estudos mais antigos ou mais recentes.
E pretende-se o diálogo intensivo com o leitor para que a leitura
seja uma atividade de trabalho comum, pois só este é o valor
constitutivo do ser humano em sua plenitude, pelo menos na plenitude possível
nesta atualidade tão problemática. E há, também,
neste livro, um outro diálogo, que pretende ser constitutivo do
saber, que é a relação crítica entre os textos
e as imagens. Essa relação se põe como continuidade
e diferença, pois as imagens não pretendem apenas ilustrar
os textos, mas dialogar com eles, completá-los ou dissentir deles,
enriquecer enfim o conjunto, de modo que o leitor leia e analise as imagens
para chegar a um conjunto em que as diferenças digam a que vieram
e por que estão ali.
Os muros e distâncias que separam as classes sociais, as frações
de classe, as distinções culturais, o popular e o erudito,
as diferenças de formação e constituição
das regiões hoje oficiais, seus problemas específicos, os
processos que instituíram nossas semelhanças e diferenças,
o cotidiano, os jogos simbólicos, a indústria cultural e
suas aparências alienantes e alienadas, as vivências e experiências
modernas, nas festas, nas expressões artísticas, no Direito,
nas leis, nas condições de cidadania, e, em síntese,
nossa modernidade incompleta constituída de atraso e tecnologia
de ponta, convivendo no mesmo espaço social, a poucos metros entre
si, incluindo e excluindo milhões de brasileiros, e algo mais.
Podemos dizer que de tudo isso há um pouco neste livro. Não
sendo um retrato do Brasil, talvez seja um percurso especular -- retrato
espéculo, dizia Drummond sobre o amor -- que evidencie amor e ódio
no rastro da aventura em processo, cujo presente é difícil
de seguir e cujo futuro será o que formos capazes de pensar, engendrar
e dar continuidade. Este não é um livro para ociosos, mas
para aqueles que querem, na crítica lúcida e no conhecimento
rigoroso construir um País, para além do que ele é
hoje.
Valentim Facioli
Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo
Organizadores
CULTURA BRASILEIRA
O jeito de ser e de viver de um povo
368 páginas ilustradas
capa dura, miolo em quadricromia
Edição da Nankin Editorial com o patrocínio da Corn
Products
R$120,00
CONTEÚDO
IDENTIDADES
Ser brasileiro hoje: visitando e revisitando símbolos identitários
Luiz Henrique de Toledo
Em busca da identidade cultural brasileira
Edgard Luiz de Barros
Brasil 2000
Vito Letizia
A cabrocha e o magistrado: apontamentos sobre o drama do Direito no Brasil
José Rodrigo Rodriguez
CULTURAS
Notas sobre as cidades e as idéias no Brasil
Francisco Alambert
Cultura popular: brincadeiras, danças dramáticas e o peso
da mão afro-brasileira
André Paula Bueno
Linguagem, música e estética negra
David Treece
Foi conta pra todo canto. Música popular e cultura religiosa afro-brasileira
Rita Amaral e Vagner Gonçalves da Silva
REGIÕES
A formação da Amazônia e seu lugar no Brasil
Kelerson Semerene Costa
Grande Oeste: reflexões à margem da memória
Paulo Bertran
Notícia das gentes de Nordeste
Eduardo Diatahy B. de Menezes
Região Sudeste: unidade ou diversidade?
Júlio César Suzuki
Onde assovia o minuano
Günter Weimer
APRESENTAÇÃO DO PATROCINADOR
Estes valores, tão caros à Corn Products Brasil desde a
sua fundação, também permeiam a concepção
deste livro que você, leitor, tem em mãos. Discutir um tema
complexo e abrangente como a "Cultura Brasileira" requer muito
cuidado e dedicação, mas nenhuma empresa que possua um compromisso
sincero com o desenvolvimento do país pode se esquivar da responsabilidade
de apoiar iniciativas como esta. Uma responsabilidade e tanto, diga-se
de passagem. Porém, são os desafios mais instigantes que
trazem as recompensas mais saborosas.
Há tempos o Brasil é objeto da atenção de
seus filhos estudiosos e pesquisadores. Nomes consagrados - como Euclides
da Cunha, Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre - já
se dedicaram à aventura de despir as mais recônditas inquietações
dos brasileiros, espalhados pelos infinitos cantos do país. E essa
investigação, fonte inesgotável de descobertas, não
se extenua nunca, justamente porque a cultura dos vários tipos
que compõem uma nação está em eterna metamorfose.
Este livro responde a essa vontade curiosa de olharmos para o nosso próprio
umbigo e, por alguns minutos, refletirmos sobre as nossas raízes
para, posteriormente, planejarmos o futuro com mais propriedade.
Vivemos um momento singular de nossa história. Os fantasmas do
autoritarismo parecem de vez exorcizados e as promessas de crescimento
sustentável batem à nossa porta com mais força. Nesse
sentido, o auto-retrato proporcionado pela publicação de
Cultura Brasileira -- O jeito de ser e de viver de um povo joga luz sobre
os caminhos que devemos trilhar até a construção
de um país que obtenha sucesso em todas as suas empreitadas, que
respeite suas diferenças e, mesmo assim, não se sinta abalado
em sua integridade. Uma luta que só pode ser vencida com trabalho
de excelência inquestionável.
Jorge Fiamenghi
Presidente
NANKIN EDITORIAL
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