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Tive ouro, tive gado, tive fazendas. / Hoje sou funcionário
público. / Itabira é apenas uma fotografia na parede. /
Mas como dói!. Nos conhecidos versos finais de Confidência
do itabirano, está condensada a trajetória pessoal
do autor, Carlos Drummond de Andrade, das fazendas de Itabira às
repartições públicas do Rio de Janeiro. E neles também
repercutem as profundas mudanças sociais por que passava o Brasil
de então, com suas oligarquias rurais lentamente cedendo às
pressões da urbanização. Em Drummond Cordial
trabalho que foi um dos vencedores do IV Concurso Nacional de Ensaios
Ministério da Cultura Nestlé , o jornalista e crítico
Jerônimo Teixeira analisa a dimensão histórica da
poesia drummondiana com ajuda da noção de homem cordial,
desenvolvida por Sérgio Buarque de Holanda.
A cordialidade não é, como muitos acusam às
vezes sem ler Raízes do Brasil , uma apologia da bondade
pátria. Pelo contrário, trata-se de um conceito que até
hoje guarda grande alcance crítico para a análise da vida
institucional brasileira e, como se demonstra neste livro de forma
inovadora, também para a crítica literária. Herdeiro
decaído do poder familiar dos fazendeiros, nostálgico mas
desiludido em relação ao mundo afetivo que deixou para trás
na cidadezinha qualquer de Minas Gerais, o funcionário drummondiano
encarna o homem cordial submetido às pressões da vida mecanizada
na cidade. Mas a poesia de Drummond também flagra em um
piano antigo, nos retratos de família, no pai mineiro que aparece
enterrado sob o asfalto de uma rua carioca o poder renitente dos
velhos laços familiares. Nessa encruzilhada histórica entre
o Brasil arcaico e o mundo moderno, o conceito de cordialidade faz as
vezes de uma bússola sociológica: orienta o crítico
pelos caminhos pedregosos da lírica de Drummond. E esse instrumento
analítico apresenta toda a delicadeza e a perspicácia exigidas
para análises originais de grandes poemas como Resíduo,
Oficina irritada, Os bens e o sangue e Escada,
entre outros. Com sensibilidade apurada, Drummond Cordial desvenda
detalhes até hoje pouco observados na dolorosa fotografia que o
poeta itabirano pendurou em nossa parede.
Jerônimo Teixeira nasceu em Montenegro, Rio Grande do Sul, em 1968.
Jornalista, trabalha na revista Veja. É autor da novela As Horas
Podres e do livro de contos Pedacinho do Céu. Drummond Cordial
é sua dissertação de mestrado em Letras, defendida
na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Nankin Editorial
ISBN 85-86372-81-1
2005
248 páginas
R$35,00
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