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NOSSOS
SEIOS
Este livro do Zé Rodrigo amadureceu nos últimos
20 anos. Foi meu privilégio acompanhar de perto, passo a passo
essa maturação. Desde o adolescente, leitor voraz e movido
pelo sopro interior da poesia, até o homem feito de hoje, ainda
jovem, pesquisador e estudioso completo de filosofia, direito, estética
e literatura.
Meus seios, com seu título enigmático e irônico,
e talvez também agônico, é uma expressão poética
que engendra e percorre os grandes impasses da lírica na modernidade
capitalista, e nesta periferia de quase todos os pecados. O eu lírico
mergulha nas conexões que constituem o sujeito problemático
(que já não pode ser herói), percebido sempre instável
e o social que ataca e corrói. Também presentes os fantasmas
dos tempos e do tempo com dimensões de horror e morte,
e tudo em busca de palavras poéticas ou antipoéticas, que
se estranham na interioridade e na voz do sujeito.
E daí a idéia de antinomia/ residir na mesma frase/
debatendo-se antes do som/ ou formação da memória,/
um pé em cada margem do rio/ sínodo/ de uma idade em resumo/
sempiterna desrazão. Esses versos ressoam a poderosa observação
de Walter Benjamin sobre a astúcia poética do fundador da
poesia moderna, o poeta francês Charles Baudelaire. E não
ressoam por acaso, porque Zé Rodrigo leu ambos e leu também,
e muito bem, os grandes da poesia moderna no Brasil e alhures. E isso
está em sua poesia, como o leitor poderá constatar.
O livro está organizado, com rigor, em 4 partes: a primeira uma
espécie de acerto de contas (também baudelairiano) com o
leitor de poesia, que por sua vez parodia implacavelmente as ditas artes
poéticas de velha tradição. A segunda parte
são as naus da iniciação, percurso tenso
e problemático da viagem a ser encetada juntamente com o leitor,
mas também com os não-leitores. É um início
com o tratamento e o desarmamento da inumerável fragmentação,
que, atualmente, nos tortura e aliena. E ainda com espaços ambíguos
para homenagens.
A terceira parte, transforma-se o amador na coisa amada, retoma
lírica e parodicamente o célebre soneto camoniano, mas só
no título, porque essa parte se constitui na tradução
livre de um texto de Paul Valéry, a todos os títulos uma
discussão fundamental do fazer poético, da poesia na modernidade
e das situações do poeta. A quarta parte: A cidade
e seus mortos temos um Zé Rodrigo mais pessoal, embora sempre
social, imerso em problemas de ampla gama, da vida e da morte, da solidão,
do sexo tenso e de algum desamparo, em especial, e da cidade de São
Paulo, tida como destino e fatalidade.
Meus seios também tem humor, sarcasmos, jogos, ironias e
prenuncia, num poeta de enorme vocação, a presença
de uma voz nova, que certamente poderá construir caminhos ainda
não percorridos pela nossa poesia contemporânea.
Valentim Facioli
NANKIN EDITORIAL
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