Embora
a crítica moderna considere que Machado de Assis tenha alcançado
sua maturidade apenas depois da publicação das Memórias
Póstumas de Brás Cubas, ela, na realidade, pouco se concentrou
na análise mais aprofundada de seus dois últimos romances, escritos
já no século XX, assim como de certa maneira negligenciou a sua
contribuição derradeira como cronista para a série intitulada
A Semana. Talvez haja nisso, implicitamente, a idéia de que tais
obras representariam uma fase de "decadência" de nosso maior escritor.
O presente trabalho procura ir contra essa tendência, mostrando que, nessas
obras, Machado de Assis atingiu um grau de domínio e perfeição
da técnica narrativa, se não superior, pelo menos igual ao de suas
produções mais consagradas.
O livro explora os temas maciadianos
seguindo de perto a proposta de encontrar o nexo entre a ideologia do rentista
do início do século XX no Brasil e seus modos de pensar, sentir
e dizer através dos narradores criados por Machado de Assis, cujos parâmetros
estão nos princípios fecundos da crítica inovadora de Roberto
Schwarz. Contudo, apesar de sua inegável filiação a essa
importante tradição de leitura dos textos machadianos, a autora
não se restringe aos seus aspectos exclusivamente sociológicos,
focando a sua análise no modo como Machado de Assis, ao produzir esses
tipos de narradores, também criava uma técnica literária
extremamente original, que procurava tanto absorver o melhor da literatura universal
como adequá-la para o meio brasileiro. Além disso, também
é ressaltado no livro o caráter moderno desse procedimento, demonstrando
a profunda consciência crítica do escritor, a mesma que o afastava
dos preconceitos provincianos e dos modismos imitativos de sua época. Pode-se
encontrar exemplos dessa originalidade de Machado logo no primeiro capítulo,
quando a autora estuda a armação elaborada por ele ao escrever dois
romances com a mesma "moldura narrativa", e no último capítulo,
quando o estudo das despretensiosas crônicas revela ligações
entre forma narrativa e um ethos similar ao que Machado escolheu para seus
grandes romances em primeira pessoa.
Na realidade, pode-se afirmar que
o grande inspirador das idéias elaboradas neste trabalho é Antonio
Candido, que viu na ficção de Machado de Assis um dos auges da superação
dialética entre o local e o universal na literatura brasileira. Segundo
ele, através de técnicas narrativas heterodoxas Machado trouxe para
primeiro plano o "homem existente no substrato dos homens de cada
país, região, povoado".
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