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Através da análise da nostalgia, este estudo examina o processo
que levou à invenção e cristalização
de uma maneira especificamente moderna de dar forma ao passado e ao relacionamento
com os mortos.
Primeiro, no capítulo inicial, reconstitui-se o nascimento da palavra
e do conceito de nostalgia, desde sua criação pelo médico
suíço Johannes Hofer em 1688 até sua consolidação
como uma doença da memória na Europa dos séculos
XVIII e XIX.
O segundo capítulo, com base principalmente em leituras de alguns
textos de Marx, busca mostrar como a nostalgia aos poucos se tornou um
problema de outra natureza, com o afeto pelo passado sendo acusado de
ser politicamente repreensível e empiricamente insustentável.
As duas acusações dependem de uma maneira particular de
entender o passado e a história: é só quando o movimento
da história passa a ser visto como necessariamente emancipador,
progressivo e racionalmente compreensível que o apego ao passado
pode ser condenado como uma aberração política e
um obstáculo irracional. Partindo dessa visão de mundo,
vários discursos criariam fórmulas para definir a reação
adequada à morte do outro, com linguagens diferentes freqüentemente
reproduzindo uma mesma estrutura.
A segunda parte do estudo os três capítulos seguintes
busca, através da leitura de alguns textos narrativos da
literatura hispano-americana da segunda metade do século XX, identificar
algumas maneiras de entender o lugar da nostalgia e do luto na modernidade.
As análises de três romances latino-americanos Pedro
Páramo do mexicano Juan Rulfo, Paradiso do cubano José
Lezama Lima, En estado de memoria da argentina Tununa Mercado ,
conduzem a uma discussão do problema da representação
da morte moderna e à exploração das conseqüências,
para o pensamento, para a literatura, para a política e para a
ética, de diferentes formas de se pensar a relação
entre o presente e o passado e entre os vivos e os mortos.
Marcos Piason Natali nasceu em Campinas em 1971 e é mestre e doutor em
Literatura Comparada pela Universidade de Chicago. É professor no Departamento
de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP desde 2003.
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