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ENTRE A RUA E A ÓPERA
Anselmo é um sujeito algo desajeitado. Acabou desempregado justamente
quando se faziam sentir no Brasil (e São Paulo) os efeitos pesados
do processo da globalização periférica implementado
a partir de inícios dos anos de 1990.
Quando Anselmo se dá conta está no olho da rua e a empresa
em que trabalhava fora incorporada, parece que por uma multinacional.
Na realidade, no desejo ou no sonho, talvez apenas nas barbaridades da
indústria cultural, até o ex-dono da empresa teria sido
assassinado e mesmo seus miolos devorados. É fato, é informação
ou metáfora?
Este forte e bem construído romance de Eromar Bomfim encena e dramatiza
o percurso de Anselmo desempregado e em busca de nova ocupação
durante o período de uma nova formação da personagem.
Trata-se, assim, de certo modo, de uma narrativa de formação
do herói no contexto do abandono, da solidão e da exclusão.
O que Anselmo experimenta e aprende está nas ruas, no parco dinheiro
que se esvai e que necessita de insano controle, no seu apartamento deteriorado,
em gentes perigosas de conviver, em observações, em lembranças
e memórias, em procura inútil, nos fragmentos que remetem
para o pai. Enfim, num conjunto de circunstâncias com as quais ele
modula sua alienação como caminho do conhecimento. Não
faltam zonas de sombra cuja decifração não está
disponível, nas quais se encontram os desvãos da angústia,
da falta de rumo e de sentido para a vida.
A melhor tradição da literatura realista, mas não
naturalista, sabe que a obra de arte tem poder de reconhecimento e de
conhecimento, indispensável para pensar os homens e suas circunstâncias.
Pois O olho da rua, nessa linhagem, se constitui como narrativa que pesquisa
o tempo presente, os homens presentes. E, como poucos romances contemporâneos
no Brasil, dá-se os meios para que essa pesquisa estética
também se faça histórica e sociológica.
A experimentação estética e de linguagem é
sóbria e eficaz. Engendra personagens e situações
narrativas que se encontram na adequação de assunto e estilo.
A fala das ruas está ali, assim como a norma culta, fundem-se e
realizam-se como expressão forte e renovada. O herói, sem
heroismo grandiloqüente, percorre seu destino para encontrar-se com
a ópera, muito mais capaz de fazê-lo humano do que um emprego
humilhante a ser conquistado à faca. Na barbárie do desemprego
há uma luz capaz de fazer um sujeito dono de si mesmo. Anselmo
é capaz dessa proeza, como evidência de que um emprego na
periferia do capitalismo globalizado pode ser tudo menos uma garantia
humana para o homem atual.
Valentim Facioli
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