LITERATURA
E HISTÓRIA DA ÍNDIA Este
livro é um trabalho exemplar no estudo das complexas relações
entre literatura e história. Neste caso, a análise de três
romances indianos de língua inglesa vale como passaporte para um conhecimento
amplo também da história da Índia moderna.
Na pitoresca
linguagem diplomática e da indústria cultural, a Índia é
um país emergente, como o Brasil, a China e outros. Mas, pode-se
perguntar: emergindo de onde? e para onde? O que resta, contudo, é que
por aqui pouquíssimo, ou quase nada, sabemos sobre a Índia, seja
sua literatura, seja sua história.
O foco deste livro excepcional
é, como diz seu subtítulo, o estudo da representação
da Nação indiana em três narrativas da tradição
indo-inglesa: O palácio do espelho, de Amitav Ghosh (no Brasil,
Objetiva, 2006); Um moço apropriado, de Vikram Seth (sem edição
no Brasil); O deus das pequenas coisas, de Arundhati Roy (Companhia das
Letras, 1998). O tempo ficcional desses três romances problematiza a história
da Índia a partir da Independência, em 1947, passando pela Segunda
Guerra Mundial e chegando até os anos 1960, conforme a perspectiva articulada
pelos três autores nas décadas de 1990 e 2000.
Nas palavras
exatas da autora, a Nação é metáfora central
na tradição do romance indiano de língua inglesa, uma vez
que a história da Independência da Índia e a formação
da Nação constituem um processo ideológico e emocional que
afetou todo o subcontinente. Como tentaremos demonstrar no presente trabalho,
tendo começado no século XIX, esse processo continua ainda hoje,
tornando-se um grande reservatório de material literário.
A
Praja do título é expressão precisa e preciosa colhida em
texto do Mahatma Ghandi e implica o desejo de concretizar o ideal de uma Nação
(Praja) para todos, integrando no subcontinente indiano as classes e as castas,
as religiões e culturas, buscando superar as diferenças e desigualdades,
constituindo uma unidade nacional moderna, sem discriminação nem
opressão. É um sonho em processo, repassado de contradições
e conflitos.
São problemas candentes e atuais da Índia, que
guardam inesperada ressonância com problemas das sociedades brasileira e
latino-americanas, e não só porque seríamos emergentes em
comum. A diferença nos une, apesar de tudo e das imensas distâncias... Valentim
Facioli |