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O PÉ DA VIDA
Então, o narrador, retirado do mundo dos negócios, refugia-se
num lugar ermo e rural, porque está doente e quer a cura difícil
e talvez impossível. Nesse lugar, apenas uns poucos amigos ou asseclas
sabem de sua presença. Um homem de menos de cinqüenta anos,
que conhece o funcionamento dos negócios e das maracutaias da gente
fina, rica e importante. Suas tarefas profissionais são aquelas
que livram a cara dessa gente. Ele ganha muito com isso, e não
abre mão de ser profissional nas tarefas e cínico nas reflexões.
Nesse lugar ermo e rural, que parece perto e ao mesmo tempo muito distante
e diferente, vive Fé Ascensão, mulher porreta e cheia de
sabedoria. Ela também conhece muitas e muitas histórias
de sua região, de seus moradores atuais ou antigos, dos vivos e
dos mortos. Ela conhece de quase tudo de seu mundo, dos costumes, das
sabenças, das fórmulas da medicina popular. E tem um acordo
com o narrador para curá-lo da doença terrível e
mortal.
Do convívio entre o letrado culto, ou quase, e a iletrada inculta,
ou quase, nasce o magnífico texto desse romance de Ariosto Augusto
de Oliveira. A experiência de linguagem e a experiência de
narrar são ricas e originais, integrando o letrado e o iletrado
numa fantasia onde sobressai um enorme talento de contar histórias
e de se perguntar sobre o sentido da vida.
É uma narrativa forte, na qual os múltiplos destinos humanos
estão sempre em travessia de vida e morte, e a sabedoria supostamente
ingênua e iletrada de Fé Ascensão espalha verdades
vividas e colhidas na vida bruta, reorganizando e questionando a fundo
a pretensão do letrado. Há um paradoxo nisso, desdobrando-se
também no enredo, no qual tudo acontece e acontece muito pouco.
É um romance que retoma com novidades estéticas e força
narrativa esse problema sempre vivo na sociedade brasileira, de fazer
falar suas verdades a voz do povo, cujo lugar está em todo lugar
do país, embora a literatura brasileira raramente tenha essa capacidade
para encarar e enfrentar o dilema.
Pois O vau da vida, cujo autor recebeu com Vila nova de Málaga
o prêmio de melhor romance de 2000, dado pela Academia Paulista
de Letras, consegue dar voz verossímil a Fé Ascensão,
fazê-la falar, num estilo próprio e num permanente exercício
de narrar e oferecer ao leitor o senso da aventura e do prazer do texto.
VALENTIM FACIOLI
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