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Experiências do espaço público na ficção de Clarice Lispector

Gilberto Figueiredo Martins
ISBN 978-85-7751-061-0
216 páginas - R$40,00
publicado em dezembro de 2010, em coedição com a Edusp
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CLARICE MUITO SOCIAL

Os estudos da obra de Clarice Lispector já contam uma bibliografia ampla e variada, no Brasil e no exterior. Grande parte desses estudos tem destacado dimensões prioritariamente subjetivas e psicológicas, eventualmente biográficas, via psicanálise, e de questionamento/inovação de discurso estético/literário.

Sem nenhum demérito para essas abordagens, no interior das quais há contribuições muito valiosas de análise e interpretação da obra de Clarice, o que parece vem fazendo falta, salvo algumas importantes exceções mais recentes, é justamente o que o leitor vai encontrar neste livro excelente. E que está indicado em seu subtítulo: “experiências do espaço público na ficção de Clarice Lispector”.

Para dar conta desse percurso complexo e inovador, Gilberto Figueiredo Martins acompanha os passos da obra e da escritora com olhar amoroso e compreensivo, mas sobretudo afiadíssimo e desafiador, transitando por muitos textos, de contos, crônicas, a romances e depoimentos, sem hierarquia de gêneros.

Essa abrangência mostra-se fundamental para compreender e interpretar a trajetória de Clarice como vocação consolidada através de sua escrita problemática e problematizadora, que vai revelando e ratificando a experiência do espaço público em relação dialética com a notação subjetiva. Psicologia individual e experiência social como “agudo pendor reflexivo, dotado de alto grau de aferição crítica”.

As duas partes do livro, como o leitor verá, contêm, a “Primeira” seis capítulos e a “Segunda” quatro. As matérias literária e histórica analisadas e interpretadas se apresentam como um conjunto de temas e problemas que, sendo recorrentes, implicam-se mutuamente bem como implicam continuidades e variações de um sujeito sempre inquieto, rebelde e crítico.

Assim, experiências de exílio e morte, infância (também faminta), humilhações na pobreza, faltas e carências, cidades diversas e diferentes (Recife, Rio de Janeiro, Brasília), gentes danificadas, brasileiros sem lugar ou destino, as múltiplas manifestações do mal; tudo isso, e um bocado mais, perpassam os textos de Clarice, que tem olhos agudos e pena para ver e expressar o complexo absurdo da nossa modernização capitalista periférica, conservadora e empacada. E ainda sempre se perguntar: para que serve um escritor nesse mundo?

A segunda parte do livro analisa as duas crônicas de Clarice sobre Brasília, como paradigma e emblema, numa leitura severa e crítica que ambos, Clarice e Gilberto, fazem da cidade e do Brasil em seus resultados humanos e bárbaros. Além do mais, o leitor encontra neste livro o prazer do texto e da leitura, pois seu autor é um talento excepcional de crítico e escritor.

Valentim Facioli


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