| Este
livro excepcional representa uma contribuição decisiva ao estudo
de nosso indianismo oitocentista, sem desconsiderar os antecedentes do tema na
literatura colonial.
A crítica, em geral, não viu mais do
que exotismo e evasão na imagem romântica do índio, talhada
conforme o figurino cortês do cavaleiro medieval, muito embora se tratasse
de forjar um mito pátrio, de inventar uma tradição para o
país recém-independente. David Treece sustenta o contrário:
longe de ser uma representação divorciada de seu contexto histórico
mais imediato, o indianismo constituiu uma reflexão problemática
e persistente sobre a formação simbólica e sociopolítica
do Estado nacional.
Mais do que a reposição tediosa de um
mesmo modelo, a literatura do período produziu distintas figurações
do índio, em consonância não só com o papel a ele conferido
no processo da colonização, mas também em sintonia com o
jogo político e social do próprio século XIX.
Assim,
grosso modo, entre 1835 e 1850, o índio surgia como vítima das conseqüências
militares e sociais da Conquista, numa atitude de franca condenação
do processo colonizador. Atitude alimentada, talvez, pelo antilusitanismo que
animou as violentas revoltas provinciais da Regência, pleiteando a descentralização
do poder, as reformas liberais e as promessas de mudança contra a contínua
dominação étnica e de classe.
Já entre 1850
e 1870, o índio passava a figurar como aliado, muitas vezes à custa
do sacrifício de sua própria vida ou de toda sua comunidade, em
benefício do conquistador e da criação de uma civilização
nos trópicos. Segundo o crítico inglês, tal aliança
parece reverberar muito da política de conciliação do Segundo
Reinado, buscando acomodar novos e velhos interesses, liberais e conservadores,
num momento de esforço concentrado para se alcançar a centralização
do Império e a unidade nacional, depois da instabilidade e das tendências
separatistas das décadas anteriores.
Por fim, de 1870 a 1888, o
índio como rebelde, representado em registro mais verista ou simplesmente
rebaixado, vinha pôr em xeque o modelo idealizado até então
(e já bastante desgastado), prenunciando, desse modo, a chegada de novos
ideais estéticos, políticos e sociais (realismo, republicanismo,
abolicionismo).
Se a articulação entre o indianismo e a
dinâmica histórico-política do século XIX já
foi sugerida por alguma interpretação mais recente, jamais se chegou
a uma abordagem desta envergadura, mobilizando tamanho corpus de análise,
examinado de forma sistemática e aprofundada, com uma ancoragem tão
segura nas disciplinas vizinhas (história, sociologia, antropologia). Para
além das representações canônicas do indianismo romântico
(Gonçalves Dias, Alencar, Magalhães...), Treece traz à cena
todo um elenco de autores e obras menos celebrados (ou mesmo ignorados) pela historiografia
oficial, que redimensiona por completo a visão dessa vertente literária
e o alcance do debate político-ideológico a ela associado. VAGNER
CAMILO
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