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Para quem nasce
menina lagarta, parece que a vida minúscula, desolada,
já está traçada. Está destinada a ela porque
tem pela frente os fossos sociais que conhecemos tão bem. O mundo
da poesia, da música, da arte, dos livros, enfim, parece um projeto
absurdo diante da necessidade de sobreviver. Sônia Barros é
econômica para tratar com precisão este quadro social: Quartinho/
(penico, lamparina, espiriteira).
Alguns, entretanto, pela imaginação que insiste em brotar
em terra hostil, acabam por conseguir levantar vôo. As histórias
que nascem dos lábios da mãe cansada incendeiam a imaginação
da menina. Há, porém, os que ficam perdidos pelo caminho
sem poder sentir dos dedos do vento, / o alívio/ do vôo-véu.
Em Vidas minúsculas, Pierre Michon fala de um sentimento
de traição que parece acompanhar quem sai de roças,
de pequenas cidades e das margens para alcançar o mundo da cultura.
É um processo doloroso que faz incisões definitivas no corpo.
Carrega-se culpa por aqueles que não tiveram a mesma chance. Há
uma voz incorporada que diz: tome o seu lugar, você é estranho
no ninho.
O livro todo está permeado por dois pólos: de um lado, o
desejo de alçar vôo, de fazer a palavra ganhar carne. Do
outro, o medo da não germinação, da voz dormente
no ventre, da incapacidade de florescer. As asas viram cotocos,
fogem do corpo do poeta. Esta voz que não germina contrapõe-se
ao desejo de uma outra de finas cordas e perfeita urdidura.
A sensação de fracasso, de não se alcançar
a poesia, de ficar apenas com fiapos na mão, faz parte das incertezas
de quase todo poeta. Principalmente, daqueles nascidos no solo de
agosto.
Sônia Barros compõe uma delicada partitura, cheia de temas
recorrentes. Uma música de câmara que ora ilumina ora escurece.
A voz do poeta está presa ao próprio sentido do corpo. Ressalto
uma mudança de ponto de vista quando ela deixa de olhar para o
alto e volta seu olhar para a relva e as formigas. É quando surgem
os olhos do filho. Da sobrevivência improvável (Origens)
ao nascimento do filho completa-se um ciclo. A poesia surge como possibilidade
de reflexão sobre esse trajeto e de cauterização
de feridas.
Encaro os poemas de Sônia como um interrogar-se sobre a capacidade
poética. Uma necessidade de refletir sobre sua poesia antes mesmo
de lançar-se sobre ela. Teve a necessária paciência.
Cevou e esperou. Ela veio. Agora, é perder o medo e buscar a inteireza
do vôo. É entregar-se àquela que o poeta Rubens Rodrigues
Torres Filho chamou de a obscura religião dos pássaros.
DONIZETE GALVÃO
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