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Com quantos invernos se faz uma vida?
Com quantos instantes se tece um presente? Com quantas paisagens em desamparo
se constrói uma cidade? Essas e outras indagações
perpassam obliquamente os contos deste belo livro de Prisca Agustoni
escritora que, munida de uma linguagem de sutilezas, inventa suas próprias
possibilidades narrativas no ato de extrair da realidade mais prosaica
epifanias e assombros.
O requinte do vocabulário, a costura íntima dos detalhes,
o exercício da leveza e o ritmo aliciante dos enredos conjugam-se
a uma dicção poética que confere ao conjunto uma
força de expressão capaz de provocar atos internos no leitor.
Percebe-se que em cada texto o trabalho com a palavra se sustenta da tensão
entre a experiência vivida e um dizer que a transfigura, convertendo
um acontecimento banal como, por exemplo, o estalo de uma porcelana, em
uma inesperada revelação.
Os personagens dos contos são sempre eus não-nomeados
que, sob o amparo das dúvidas, encenam uma subjetividade
errante, em estado de quase extravio. Alguns se refugiam em cidades
secretas da memória. Outros, reféns de si mesmos,
procuram saídas em estações de trem, mas sem nunca
encontrá-las. Há também os que, no intento de sobreviver
às paisagens de neve, viajam para lugar nenhum. Em todos, a mesma
existência trêmula, o mesmo desassossego que os torna estrangeiros
em seu próprio território.
Concisos e incisivos, os contos de A neve ilícita trazem
à superfície as coisas escondidas sob a realidade visível,
porém sem se furtarem à experiência cotidiana e seus
enigmas, sem prescindirem do ilícito que define os invernos de
uma vida.
Maria Esther Maciel
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