| Noite
nula, na sua metáfora enigmática, constitui o trabalho de um
poeta maduro Noite
nula é um livro pleno de poesia e de poesia plena. Carlos Felipe
Moisés deixou passar dez anos da publicação de seu anterior
livro de poesia (Lição de casa & poemas anteriores -
Nankin Editorial, 1998), retornando agora, com largos passos adiante (se isso
é possível num poeta maduro...), reafirmando as melhores qualidades
de um percurso poético que vem desde 1960.
Indicando a continuidade
e o avanço, uma espécie de poema-prefácio, quase à
margem do livro anterior, ali grafado em itálico - e sem título
(Toda lição é de casa. Uma ensina a aprender outra aprende
a ensinar. Não sei para quando será a viagem.), reaparece integrando
Noite nula, "normalizado" com o
título de "Monk & Mulligan" a demonstrar que há dez
anos encontrava-se em gestação este novo livro. Mas esse tempo cronológico
não é o mérito do novo. Este é um outro tempo, o da
articulação de uma matéria cultural e musical, feita de retalhos
e fragmentos, de figuras e imagens, de gente imersa nos escaninhos das vias reconstruídas
pela memória. Noite nula,
na sua metáfora enigmática, constitui o trabalho de um poeta maduro,
que busca a cumplicidade dos leitores cuja sensibilidade e inteligência
estejam abertas para uma aventura, que percorre o melhor e maior da poesia contemporânea.
Mas essa aventura é ainda maior: a subjetividade e a linguagem problemáticas
do homem diante do tempo, da vida e da morte. Essas instâncias (por assim
dizer) percorrem cada poema, pois elas dizem do que foi, do que se perdeu e do
que ainda sobrevive, aliciando a matéria histórica para a sua duração.
É um convite.
E, não obstante, a fala poética é
plenamente consciente de que o mundo não pode ser dito, ainda que só
se possa dizer do mundo. Por isso a consciência da ironia e do humor traduz
a poesia do contemporâneo, de Mário de Andrade, de Drummond, de Fernando
Pessoa, da poesia norte-americana de há pouco e implica um olhar, ora desconsolado
ora angustiado, da busca do sentido. Onde está o sentido dessa matéria
que não se pode calar e custa a se dizer? Ao mesmo tempo, o sentido da
vida, se há algum, pode ser buscado na poesia ou em outro lugar? Talvez
na música? Daí que música e poesia sejam uma coisa só,
sendo, ainda, diferentes.
Vê-se que o olhar e o ver o mundo de um
grande poeta não se encerram em seus poemas, mas também não
estão fora dele. O leitor terá de realizar uma busca e viver a aventura
da poesia como talvez não haja outra de tanta força e tanto desafio.
Noite nula não é um
livro para ler mas para com - viver. Seu artífice sabe disso, daí
seu convite e a exigência de boa companhia. |