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UM LIVRO PLURAL
Este livro plural sobre Machado de Assis é, de
fato, um livro singular. Tratando-se de um trabalho com dez colaboradores,
ele oferece aos leitores uma contribuição variada, rica
de alternativas, que aborda diferentes aspectos da vasta obra machadiana
e arredores.
Por isso que sua singularidade está presente como a originalidade
dos diversos discursos críticos, construídos através
de um caminho principal: a instância do leitor. Conforme fica esclarecido
na apresentação:
"O princípio que norteou a organização destes
ensaios foi a perspectiva da leitura, não no sentido específico
de uma estética da recepção, mas no que se refere
à reflexão crítica sobre a instância do leitor,
seja no universo da obra machadiana (o leitor-autor, personagens-leitoras;
livros que são leitores de outros; Machado-leitor etc.); seja no
universo das traduções, que são também atos
de leitura da obra machadiana no universo de uma outra cultura, seja nos
posicionamentos da crítica, em especial a exercida por este conjunto
de ensaístas, ao se valerem de mediações híbridas
entre a teoria literária, a retórica, a filosofia, a história
e a comunicação de massa".
Com essa perspectiva geral, o leitor deste livro está bem servido,
pois nele, com as intersecções das diferentes disciplinas,
estão abordados assuntos e temas que atualizam as implicações
da obra de Machado de Assis inclusive para além do âmbito
literário, embora através de sua expressão, como
um painel que ao mesmo tempo surpreende e reforça a grandeza do
"velho bruxo".
Como todo grande escritor, Machado se oferece, se revela e resiste às
pretensões dos leitores, mesmo se estes se supõem especialistas.
Mas ele nunca se nega às provocações e ao diálogo,
pois instituída a ironia, temperada com humor e ceticismo, sua
liberdade inventiva parece não conhecer limites, fazendo proliferar
o inumerável da vida. E esta só poder ser debatida ou revelada
através das linguagens, que são, afinal, o miolo do humano.
Este livro, enfim, persegue Machado de Assis, escritor do século
dezenove, projetando-o para nossos dias e mesmo para o futuro, procurando
nele caminhos que inquietam nosso olhar contemporâneo. Não
é questão de louvor mas de conhecimentos de nossos problemas
e impasses.
Valentim Facioli
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