AS SUGESTÕES DO CONSELHEIRO

AS SUGESTÕES DO CONSELHEIRO
Gilberto Pinheiro Passos

ISBN 978-85-7751-025-2
Publicado em julho de 2008, em co-edição com a Edusp
2ª edição, 152 páginas - R$25,00
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Gilberto Pinheiro Passos
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UMA ESCRITA NADA CONSELHEIRAL

Esta segunda edição de As sugestões do Conselheiro no ano do centenário da morte de Machado de Assis e neste quadro de homenagem editorial da Nankin e Edusp, é sempre auspiciosa. Repõe ao alcance do público um livro pioneiro e original. Ele integra um conjunto de estudos completados e publicados nos últimos anos por Gilberto Pinheiro Passos sobre os cinco romances machadianos, ditos da maturidade, agora disponíveis com todas suas cuidadosas análises, descobertas e conseqüências da prática intertextual de Machado.

O Conselheiro Aires, enigmática, culta e astuta figura de diplomata aposentado e escritor - que vela e revela - é, ao mesmo tempo, narrador e personagem de Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Machado de Assis propõe-se ostensivamente apenas a tarefa de editor dos diários do Conselheiro, mas confessa também ter interferido nos textos e nos resultados. Os leitores, contudo, não ficam sabendo o grau e a extensão de tal interferência.

Gilberto Pinheiro Passos acompanha então a movimentação narrativa do Conselheiro; identifica uma escrita nada conselheiral e essencialmente anti-autoritária e anti-dogmática, que se engendra como um conjunto de sugestões, sustentadas por ambigüidades, negaceios, armadilhas e astúcias, o que chama o leitor para jogar um jogo de regras desconhecidas, tanto nas questões frívolas como nas graves.

O estudo de Gilberto Pinheiro Passos demonstra a consciência aguda do Conselheiro para o tamanho fluminense das questões locais e nacionais. E realiza um levantamento minucioso do influxo francês, principalmente (mas também do alemão e do italiano - que ocorrem em menor escala, sendo importantes) a que recorre o narrador machadiano para tentar dar contas das complexidades e dos problemas vividos pelas personagens. Fica revelado um certo tom menor na empresa narrativa de Aires, o que lhe permite dissonâncias sem preconceitos e também alimentar a ironia e o humor mesmo tratando, como trata, das questões mais graves: tensões, contradições, impasses de toda ordem, herança, dinheiro, inimizades inconciliáveis, amor e morte e, ainda, Abolição e República.

A ênfase na fonte francesa revela que o Conselheiro se socorre de escritores contemporâneos e mais antigos (Boileau, Buffon,Victor Hugo, Renan, Madame de Sévigné, Mérimée) e tudo feito pelo autor com sutileza e compreensão, desvendando a fragilidade da literatura brasileira de então, da qual o Conselheiro Aires tem perfeita consciência. Isso supõe ademais um programa crítico de Machado de Assis, centrado no seu presente e com olhos no futuro.

Todos nós leitores temos muito a aprender com esse estudo exemplar, tanto sobre a nossa formação histórica algo descalibrada, como sobre a nossa literatura tornada muito melhor por Machado de Assis.

Valentim Facioli


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