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UMA ESCRITA NADA CONSELHEIRAL
Esta segunda edição de As sugestões
do Conselheiro no ano do centenário da morte de Machado de
Assis e neste quadro de homenagem editorial da Nankin e Edusp, é
sempre auspiciosa. Repõe ao alcance do público um livro
pioneiro e original. Ele integra um conjunto de estudos completados e
publicados nos últimos anos por Gilberto Pinheiro Passos sobre
os cinco romances machadianos, ditos da maturidade, agora disponíveis
com todas suas cuidadosas análises, descobertas e conseqüências
da prática intertextual de Machado.
O Conselheiro Aires, enigmática, culta e astuta figura de diplomata
aposentado e escritor - que vela e revela - é, ao mesmo tempo,
narrador e personagem de Esaú e Jacó e Memorial
de Aires. Machado de Assis propõe-se ostensivamente apenas
a tarefa de editor dos diários do Conselheiro, mas confessa também
ter interferido nos textos e nos resultados. Os leitores, contudo, não
ficam sabendo o grau e a extensão de tal interferência.
Gilberto Pinheiro Passos acompanha então a movimentação
narrativa do Conselheiro; identifica uma escrita nada conselheiral e essencialmente
anti-autoritária e anti-dogmática, que se engendra como
um conjunto de sugestões, sustentadas por ambigüidades, negaceios,
armadilhas e astúcias, o que chama o leitor para jogar um jogo
de regras desconhecidas, tanto nas questões frívolas como
nas graves.
O estudo de Gilberto Pinheiro Passos demonstra a consciência aguda
do Conselheiro para o tamanho fluminense das questões locais e
nacionais. E realiza um levantamento minucioso do influxo francês,
principalmente (mas também do alemão e do italiano - que
ocorrem em menor escala, sendo importantes) a que recorre o narrador machadiano
para tentar dar contas das complexidades e dos problemas vividos pelas
personagens. Fica revelado um certo tom menor na empresa narrativa de
Aires, o que lhe permite dissonâncias sem preconceitos e também
alimentar a ironia e o humor mesmo tratando, como trata, das questões
mais graves: tensões, contradições, impasses de toda
ordem, herança, dinheiro, inimizades inconciliáveis, amor
e morte e, ainda, Abolição e República.
A ênfase na fonte francesa revela que o Conselheiro se socorre de
escritores contemporâneos e mais antigos (Boileau, Buffon,Victor
Hugo, Renan, Madame de Sévigné, Mérimée) e
tudo feito pelo autor com sutileza e compreensão, desvendando a
fragilidade da literatura brasileira de então, da qual o Conselheiro
Aires tem perfeita consciência. Isso supõe ademais um programa
crítico de Machado de Assis, centrado no seu presente e com olhos
no futuro.
Todos nós leitores temos muito a aprender com esse estudo exemplar,
tanto sobre a nossa formação histórica algo descalibrada,
como sobre a nossa literatura tornada muito melhor por Machado de Assis.
Valentim Facioli
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