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O CORPO: matéria e delírio
Este livro é pioneiro e original no substancioso corpus
da crítica literária já acumulada sobre a poética
de Carlos Drummond de Andrade. Até agora nenhum livro se havia
debruçado na observação, análise e interpretação
das múltiplas, ricas e contraditórias imagens do corpo na
obra do grande poeta mineiro. Os seis capítulos que formam este
trabalho percorrem seis grandes livros de Drummond: Alguma poesia,
Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo
e O amor natural, num esforço muito bem realizado de revelar
as diferenças de enfoque e tratamento que a representação
do corpo ganha nesse longo e complexo percurso do poeta.
Ao mesmo tempo, o autor e crítico, também mineiro, que leciona
em Washington, Vivaldo Andrade dos Santos, problematiza os conceitos modernos
de corpo e sobre o corpo, conceitos presentes na Filosofia e na Antropologia,
mais recentes, para guiar-se com segurança numa matéria
tão propícia aos enganos, fraudes e preconceitos. Esse trabalho
extenso e de amorosa dedicação também leva em conta
o que a crítica já interpretou e estabeleceu (bem ou mal)
na representação do corpo, e permite um olhar sobre a totalidade
da poesia de Drummond, em seus múltiplos aspectos temáticos
e formais.
Uma preocupação central deste livro foi aproximar a poesia
da filosofia a partir da consciência do corporal. Drummond
responde a uma série de indagações de ordem existencial,
e se situa no mundo da história das idéias, conforme
parte da crítica já assinalou. E mais, diz o autor: o
corpo neste estudo foi atravessado por uma série de discursos,
como a estética, a psicanálise, a sociologia, a filosofia
e a história, a partir dos quais assinalamos variações
do corpo: o corpo grotesco, o corpo embriagado, o corpo sóbrio,
o corpo frágil, o corpo reificado e nauseabundo e, por fim, o corpo
transgressor. O leitor encontrará nesta análise as
reflexões e as iluminações do corpo danificado e
gozozo da poesia de Drummond, conforme dito pelo poeta em seu derradeiro
livro, em Missão do corpo:
Claro que o corpo não é feito só para sofrer, /
mas para sofrer e gozar. / Na inocência do sofrimento / como na
inocência do gozo, / o corpo se realiza, vulnerável / e solene.
Valentim Facioli
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