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O projeto de Airton Paschoa
parece inexeqüível, à semelhança do que ocorre
com a vida que levamos. Vem daí o interesse dele, e dela. Afinal,
como ser lírico se o mundo mal se deixa sentir e se aquele que
deveria senti-lo almeja à proteção de uma toca? Enfim,
que louco agüentaria respirar ao ar livre, sob o sol que sonhamos,
sozinho?
O narrador quer aventurar-se, pôr-se ao largo, pena que tarde
tanto o mar.... E por isso recolhe-se ao quarto, ao leito, há
dias que acordamos até o pescoço sonhosos, para logo
nos afundarmos no dia e suas covardias. Ou ainda: A
luz que recortam as lâminas [da persiana] me enfaixa o corpo docemente,
deste a quem nunca me faltou a consciência que nasci e vou
morrer nesta cama. Nem aventura nem descanso.
Como a Winnie de Dias felizes, o personagem delineado neste livro
poderia dizer: Bem, seja como for, é o que sempre digo, foi
um dia feliz apesar de tudo, outro dia feliz. Apesar de tudo, inclusive
de estar enfiada na terra até a cintura. O nosso autor, por sua
vez, prefere enterrar-se nas cobertas, um Platão às avessas,
aflito para encontrar revelações no mais fundo da caverna,
descrente da limpidez das idéias. Mas também um estóico
zureta, testando a todo instante as imunidades conferidas pela ataraxia.
Sim, porque num piscar de olhos surgem manhãs tão
absolutas que nos levam quase a cair de joelhos aos pés do Tempo
(...) tão soberanas que, coroando mundo-de-deus assim desencantado,
nos fazem sentir, mesmo súditos, menos infelizes.
De fato, a coisa é meio grega. Quando se pega o touro à
unha, a coisa é sempre um pouco grega, por mais que a claridade
mediterrânea se turve com a fuligem dos nossos dias, do nosso país.
Por vezes, para poder sentir, o narrador de Ver navios precisa mesmo desdobrar-se
em outros: seu irmão, seus filhos, um pobre velho. Quando o mundo
não nos pertence, só podemos senti-lo sendo o que não
somos, pois ele só se mostra àqueles que não se interessam
por ele. Mas um mundo que nos pertence ainda é mundo? O livro de
Airton Paschoa ajuda a pensar e tensionar esses enigmas. Sem resolvê-los
o que só fala a favor de sua grandeza.
Rodrigo Naves
Airton Paschoa publicou Contos tortos (1999) e Dárlin
(2003), todos pela Nankin Editorial.
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