O
desejo de contar uma história | O romance policial permanece
como uma referência forte na atual narrativa romanesca, capítulo
importante da Literatura Brasileira dos séculos XX e XXI. Acompanhando,
como herdeira estética e discursiva, a saga iniciada por Conan Doyle, Agatha
Christie, Ian Fleming, Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza, para citar apenas
alguns, parece haver uma linha de tradição narrativa do romance
policial na literatura ocidental. Como capítulo nacional desta
linhagem, a presente obra de Embla Rhodes marca sua presença definitiva
num cânone que pode ser constituído, tendo como perspectiva a narrativa
policial, como aqui apresentada. Este é o cânone que cada leitor
pode, por si mesmo, constituir, sem risco de incorrer em equivocados julgamentos
de valor de uma pseudo-crítica, dita pós-modernista. Isto por que
o prazer de ler Viagem ao sol, supera, em muito, esta estreita limitação
que não deve ser levada a sério.
O romance, engenhosamente,
mistura referências científicas, esotéricas, acadêmicas,
humorísticas e do cotidiano do Rio de Janeiro. O amálgama que se
consegue com esta mistura é saboroso e prima por uma linguagem leve, fluida,
em que os diálogos se apresentam como interpenetrações discursivo-argumentativas,
do próprio texto narrativo do romance. A estrutura do livro já,
graficamente, deixa claro o descompromisso de seu autor em relação
a certa subscrição estética que impõe moldes e princípios
quase rígidos. Sua aposta estética é acompanhada pelo texto
do romance que espelha o seu exercício individual de criação.
Esta engenhosidade, se por um lado não é absolutamente original
há sempre que se colocar em dúvida esta classificação
, não deixa de estabelecer um lugar peculiar para este escritor que
sabe contar uma história, como o fez Erico Veríssimo, por exemplo.
Esta é uma qualidade que não pode ser deixada de lado, quando se
pousam os olhos sobre as páginas do livro de Embla Rhodes.
As intrigas
e o vai-e-vem de uma história policial encontram aqui um eco na análise
cáustica que o autor faz de uma instituição considerada séria
e circunspecta no Brasil: a universidade. Nas passagens em que esta crítica
transparece, fica clara a acuidade sofisticada com que se refere o narrador à
empáfia daqueles que se colocam nos píncaros do saber, por ostentarem
título, acompanhando a política do publish or perish
praga imposta por certa globalização equivocada ,
um dos pontos de ancoragem da história contada neste romance.
Leitura
leve, que flui engenhosa, o livro de Embla Rhodes apresenta uma história
que põe a nu as dúvidas que muitos de nós temos, sem a sensaboria
do tratado ficcionalizado. A dúvida que nos faz pensar, a todo momento,
sobre o percurso que acreditamos estar seguindo ao longo da existência humana
sobre um planeta tão complexo e surpreendente. Por outro lado, a articulação
de um fio narrativo policialesco do autor de Viagem ao
sol, na sua originalidade, reside apenas e somente no desejo de contar
uma história, calcada no conhecimento e no desejo individuais do autor.
Não é mesmo esta a única chave-mestra que pode tentar abrir
caminho para uma explicação sobre esse fenômeno cultural,
a Literatura? José Luiz Foureaux de
Souza Júnior, Ph.D. Adjunto de Literatura Luso-Brasileira na Universidade
Federal de Ouro Preto. Leitor de Português na Universidade de Zagreb
|