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Por que um livro que não tenha sido publicado recentemente pode vir a
irritar? Porque um livro já meio passado é algo irracional... Lembrar-se
por quê, ora! do que já passou?! O leitor poderia ainda perguntar quanto
tempo leva um livro pra começar a mofar... Não muito, diríamos. Do jeito
que andam as coisas, vamos acabar esperando o exemplar na boca do forno,
correndo o risco de queimar a barriga.
De fato, a resenha de hoje em dia nem sempre se distingue do release,
que dá notícia das últimas fornadas despejadas nas prateleiras dos shoppings
culturais. Quando não é mero publicitário informe, pode avançar para o
campo minado da ficção ou do proselitismo, falando de tudo e de todos,
menos do livro, ou recuar para o campo mimado do expressionismo crítico,
tamanha a distorção, falando de tudo e de todos, menos do livro. Mas,
enquanto os jornais e revistas cuidam de carne fresca, o professor universitário
trata de matéria sedimentada. Ele receia aproximar-se da produção de seu
tempo porque, entre outras razões, não dispõe do necessário distanciamento
histórico.
Assim é que a divisão do trabalho escava uma terceira margem: a dos autores
recentes, ma non troppo, que, com sorte, obtiveram o quinhão de
uma resenha de jornal, permanecendo depois velhos demais para a imprensa
e novos demais para a academia. É preciso dizer que não seria outro o
papel da crítica senão tirá-los desse limbo e batizá-los?
O nome da presente publicação, rodapé, trai certo sabor nostálgico, senão
megalômano, maldirão uns e outros. Afinal, a instituição do rodapé de
jornal, na qual militaram Mário de Andrade, Antonio Candido, Anatol Rosenfeld,
Lauro Escorel, entre outros, era de alguma maneira uma medida iluminista,
de caráter formativo, num país que ainda não dispunha, ou dispunha há
pouco, de departamentos de letras. Num acompanhamento de míope (sem a
distância do tempo e portanto suscetível de erros), buscava-se pegar no
pé as obras que iam surgindo — um aggiornamento, diga-se de passagem,
que contava um predecessor ilustre. Machado de Assis, observando a rarefação
de boas obras, a surgir entre grandes lapsos de tempo, prescrevia a crítica
sistemática para alterar o quadro de abulia da literatura nacional: “
(...) é mister que a análise corrija ou anime a invenção, que os pontos
de doutrina e de história se investiguem, que as belezas se estudem, que
os senões se apontem, que o gosto se apure e eduque, para que a literatura
saia mais forte e viçosa”.
Pensando bem, talvez não se trate nem de nostalgia, nem de megalomania,
senão de equívoco, de bobagem mesmo. A alienação parece haver atingido
agora seu ponto máximo de ebulição... Machado de Assis?! Machado coroava
a formação de um sistema literário, “formava” uma literatura, fundando-a
em certo sentido, e pensando mantê-la vigorosa pelos séculos vindouros,
isso em seus tempos de crença... A prática crítica do rodapé, por sua
vez, se sustentava na literatura pujante de meio século afortunado, e
não é preciso ser crítico literário muito atinado para flagrar a diferença
entre as duas metades do século XX etc. etc.
Sem contestar, porém, aos céticos que clamam por “autores” e/ou “obras”,
no sentido forte da palavra, propomos apenas um movimento positivo: primeiro
desempilhar os livros, para daí, quem sabe... Se não sobrar nenhum, o
amontoado pelo menos poderá traçar o risco de nosso tempo.
Expostas as devidas desproporções, nosso projetinho guarda óbvias diferenças
com relação ao senhor projeto de nossos inspiradores: não estamos mais
alinhados em nenhum empenho formativo; só a expressão tradição cultural
e/ou nacional já soa para alguns como anacronismo, especialmente quando
o país ameaça se dissolver na ordem globalizada; evocar Machado de Assis,
então, nestas condições, comporta um ou dois quês de preciosismo, para
não dizer de arcaísmos…
Tudo isso sabemos, ou sentimos, ou pressentimos, que sabemos? O que está
em jogo, porém, não é o passado, nem mesmo o presente; o que está em jogo
é o futuro.
O marasmo de hoje tem decerto aspecto distinto daquele que Machado fustigara
em seu tempo e pouco tem que ver com a estabilização modernista que nutriu
a linhagem rodapezista, que de alguma maneira prolongava a preocupação
machadiana. O marasmo de hoje, convenhamos, é movimentadíssimo, paradoxo
que não é nosso, mas do tempo morto e vivaz da indústria cultural.
Noutras palavras, não desconhecemos que, ante a concorrência de tantos
meios expressivos poderosos, como o cinema, a televisão, o vídeo, o computador,
que vieram para ficar, e para ficar apenas no reino do audiovisual, a
literatura perdeu faz tempo sua centralidade. Certo, uma arte entre outras,
a literatura, lembrará um espírito positivo, mas que nem por isso deixou
de nos representar. Certo, mas tememos que o abismo é mais abaixo: no
reino do espetáculo, haverá “outras artes”?
Melhor ainda, não serão tudo artes no reino do espetáculo?
Para sermos absolutamente honestos, a questão não é simplesmente literária...
Por mais que reconheçamos a dificuldade destes tempos pós-modernos, multiculturais,
globalitários, não podemos também deixar de reconhecer que, em certas
quadras históricas, uma empreitada como a nossa, radicalmente conservadora,
pode revelar-se progressista. Qualquer outra atitude é pactuar com o tempo,
ou o não-tempo midiático.
Assim, em meio a tantas insolvências, e dissolvências, cumpre começar
a pagar nossa dívida histórica. Sob pena de renunciarmos ao pensamento,
à reflexão, à história, àquela porção que nos resta, enfim, de humanidade,
é imprescindível mapear a produção contemporânea, situá-la em relação
ao conjunto da literatura brasileira, querendo evidentemente designar
por contemporânea um tempo um pouco mais largo que o da indústria cultural.
Coisa de dois ou três decênios, em vez de dois ou três dias.
Não é preciso dizer que continuamos a confiar à crítica papel de relevância
nos destinos literários. Por crítica, porém, não entendemos apenas a especializada.
Tanto, que não respeitamos a linha demarcatória das especialidades e das
instituições.
Para o debate, pois, estão todos convocados. Entre nossos colaboradores
há de reconhecer o leitor que se contam não só críticos provenientes das
letras, mas muitos daqueles que, de outras áreas das humanidades, história,
filosofia, ciências sociais etc., reputam ainda vital o debate literário.
Se é modesto o novo lugar da literatura, seu desencantamento, por outro
lado, é do tamanho do mundo.
A revista rodapé se abre como espaço democrático, mas não espaço
neutro, espaço insípido, dado que sua ambição mais íntima, além de repor
a literatura brasileira em cena, consiste em contribuir, repetimos, modestamente
como sempre, em resgatar aquela dívida histórica da crítica brasileira,
na sua tarefa, cada vez mais urgente, de estabelecer criticamente o lugar
literário que ocupam nossos escritores contemporâneos, ativos ou inativos,
vivos ou mortos, novos ou novíssimos.
Comissão executiva
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