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Da desorientação do estranho
VALENTIM FACIOLI
O leitor deste Epitáfio, de Flávio Paranhos, terá a singular sensação
de um estranho incômodo que remete da morte para a vida agitada dos tempos
que correm. Brás Cubas, de Machado de Assis, diria que é a dialética da
campa e do berço, o que não desdiz da pena de um médico, como Flávio,
que conhece os dois segredos e não se satisfaz com nenhum deles.
Os contos deste livro mergulham numa inquietação, que sendo muito humana,
nada lhe é estranho e paradoxalmente tudo é. Nessa inquietação humana
correm as aparências e sob elas um fluxo de forças que irrompem nas situações
mais corriqueiras e as desequilibram, instaurando aquilo que elas pretendem
ocultar, mas logo sucumbem diante do inesperado e do inexplicável.
Mas não se trata do velho desmascaramento da tradição realista, embora
o processo não lhe seja de todo estranho. Os contos, conforme ensina sua
melhor técnica, captam momentos, instantes de personagens até então “normais”,
mas, de repente, delirantes e rebelados, iluminados na prática da violência,
do desregramento ou do pavor da morte, e da vida... Mas as causas não
aparecem, nem neuroses declaradas, nem psicoses diagnosticadas, nem interesses
contrariados. Quase sempre o estranho se revela como dimensão viva do
cotidiano, a mais viva, que revela as múltiplas faces da desumanização
do homem moderno.
Os contos de Flávio Paranhos se estruturam numa linguagem seca, direta,
sem retórica de perda, fruto da simplicidade alcançada no limite de um
trabalho quase sem fim de apuração. Essa linguagem é o veículo privilegiado
para o tratamento dos temas, para a revelação do estranho e das ilusões
de mistério da vida e da morte, da desorientação do ser humano, ocultando
ela mesma a formação erudita do autor, sua familiaridade com a tradição
filosófica, com a psicanálise, com os grandes problemas culturais e sociais
da modernidade.
Com a leitura desses contos, o leitor se forma, sempre como problema de
forma e formação, vivendo a experiência exemplar do que não é mais edificante,
mas constituinte dos danos que todos sofremos e praticamos, e para os
quais só a melhor literatura tem acesso e capacidade para revelar.
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