Panorama do Rio Vermelho
Baú de Madeleines
O intertexto proustiano nas Memórias de Pedro Nava
Maria do Carmo Savietto

Pedro Nava é um caso excepcional na Literatura Brasileira, pois só aos 65 anos de idade deu início à publicação de suas Memórias, escrevendo seis volumes, que logo se tornaram clássicos do gênero. Tendo participado do modernismo mineiro nos anos 1920/30, havia publicado uns poucos poemas, mas manteve contato intenso com escritores amigos e uma leitura cuidadosa dos grandes textos antigos e modernos.
Assim, suas Memórias vêm sendo estudadas sob variados ângulos literários e humanos, de implicações profundas na cultura letrada do País e também no perfil que oferecem da nossa vida social, de práticas, problemas e impasses que percorrem o Brasil no século XX e permanecem vivos.
Pedro Nava afirma e reafirma constantemente o influxo de grandes escritores sobre suas Memórias. São vivas nos volumes de Nava as referência, citações, epígrafes, alusões, paródias de autores como Baudelaire, Rabelais, Rimbaud, Malraux, Anatole France, entre muitos outros, e especialmente Marcel Proust.
Trata-se de uma relação constrída como diálogo ou intercâmbio, envolvendo idéias, formas, sentimentos, e operando novos modos de estruturar a narrativa da memória, já que a Literatura Brasileira é bastante pobre nessa linhagem, contando pouquíssimos autores de nível.
Pedro Nava vai a uma fonte fundamental, Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Com sensibilidade e astúcia Maria do Carmo Savietto procede a um levantamento cuidadoso da configuração original que o texto de Nava ganha nesse diálogo com o grande escritor francês, apontando convergências e diferenças entre eles.
A visão de mundo, a concepção da arte e seu papel social, o sofrimento humano, o destino das pessoas queridas, a efemeridade das coisas e dos seres, o passado perdido e reconstruído, o que aí condenamos ou sublimamos, a busca do enigma e do sentido da vida. Enfim, um mundo complexo e fascinante, que propicia ao leitor seu crescimento humano e afetivo, na observação e convivência com Nava e Proust. Eis que este livro extraordinário proporciona.
Maria do Carmo Savietto é professora de língua e literatura francesas, do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, campus de Assis.